sexta-feira, 10 de junho de 2011

Entrevista com C. S. Lewis


PerguntaQual das religiões do mundo confere a seus seguidores maior felicidade?Lewis: Qual das religiões do mundo confere a seus seguidores maior felicidade? Enquanto dura, a religião da auto-adoração é a melhor. Tenho um velho conhecido já com seus 80 anos de idade, que vive uma vida de inquebrantável egoísmo e auto-adoração e é, mais ou menos, lamento dizer, um dos homens mais felizes que conheço. Do ponto de vista moral, é muito difícil. Eu não estou abordando o assunto segundo esse ponto de vista. Como vocês talvez saibam, não fui sempre cristão. Não me tornei religioso em busca da felicidade. Eu sempre soube que uma garrafa de vinho do Porto me daria isso. Se você quiser uma religião que te faça feliz, eu não recomendo o cristianismo. Tenho certeza que deve haver algum produto americano no mercado que lhe será de maior utilidade, mas não tenho como lhe ajudar nisso.
PerguntaOs materialistas e alguns astrônomos sugerem que o sistema solar e a vida como a conhecemos foram criados por uma colisão estelar acidental. Qual é a visão cristã dessa teoria?Lewis: Se o sistema solar foi criado por uma colisão estelar acidental, então o aparecimento da vida orgânica neste planeta foi também um acidente, e toda a evolução do Homem foi um acidente também. Se é assim, então todos nossos pensamentos atuais são meros acidentes – o subproduto acidental de um movimento de átomos. E isso é verdade para os pensamentos dos materialistas e astrônomos, como para todos nós. Mas se os pensamentos deles – isto é, do Materialismo e da Astronomia – são meros subprodutos acidentais, por que devemos considerá-los verdadeiros? Não vejo razão para acreditarmos que um acidente deva ser capaz de me proporcionar o entendimento sobre todos os outros acidentes. É como esperar que a forma acidental tomada pelo leite esparramado pelo chão, quando você deixa cair a jarra, pudesse explicar como a jarra foi feita e porque ela caiu.
PerguntaA aplicação dos princípios cristãos daria um fim ou reduziria enormemente o progresso material e científico? Em outras palavras, é errado para um cristão ser ambicioso e lutar por progresso material?Lewis: É mais fácil pensar num exemplo mais simples. Como a aplicação dos princípios cristãos afetaria alguém numa ilha deserta? Seria menos provável que esse cristão isolado construísse uma cabana? A resposta é “Não”. Pode chegar um momento em que o Cristianismo o diga para se preocupar menos com a cabana, isto é, se ele estiver a ponto de considerar a cabana a coisa mais importante do universo. Mas, não há nenhuma evidência de que o Cristianismo o impediria de construir um abrigo. Ambição! Devemos ter cuidado sobre o que queremos dizer com essa palavra. Se for desejo de passar à frente de outras pessoas – que é o que eu penso que quer dizer – então, ela é uma coisa má. Se significar apenas desejo de fazer bem uma coisa, então é boa. Não é errado para um ator querer atuar tão bem quanto possível, mas desejar ter seu nome escrito com uma letra maior do que a de outros atores, isso sim é errado.
PerguntaTudo bem em ser General, mas se alguém tiver a ambição de ser General, então não dever ser?Lewis: O mero evento de se tornar um General não é nem certo, nem errado em si mesmo. O que importa moralmente é sua atitude em relação a isso. O homem pode estar pensando em vencer a guerra; ele pode estar desejando em ser General porque honestamente pensa que tem um bom plano, e ficará feliz em colocá-lo em prática. Isso está ok. Mas, se ele pensa: “O que posso ganhar com esse emprego?” ou “O que devo fazer para aparecer na primeira página do Illustrated News?” então, isso é errado. O que chamamos de ambição, usualmente, significa o desejo de ser mais notável ou mais bem sucedido que outra pessoa. É o elemento competitivo que é nocivo. É perfeitamente razoável querer dançar melhor ou ter uma aparência melhor do que outros – quando você começar a perder o prazer se outros dançarem melhor que você ou tiverem uma melhor aparência, então você está indo na direção errada.

A Igreja como Ídolo


Certa vez perguntei a Deus se a igreja que pastoreio iria crescer, e Ele me respondeu: EU TE AMO.
No primeiro instante foi gostoso ouvir essa declaração de Deus a meu respeito, segundos depois se tornou desconcertante, pois a declaração era também uma crítica. Entendi que minha relação com a igreja era idólatra, ou seja, eu usava a igreja e seu “sucesso” como elemento de auto-avaliação, de valorização da minha pessoa e de auto-justificação. Entendo por auto-justificação tudo o que nos parece comunicar a aprovação de Deus e dos homens.
Naquele momento Deus estava dizendo: desista de tentar construir uma imagem própria que seja aceitável e louvável. Abandone de uma vez por todas a busca por arrancar das pessoas aprovação por meio das suas realizações. E aprenda, de uma vez por todas, que o seu valor está no que sito por você. E que não preciso que você me impressione, não fico deslumbrado com sua devoção, nem tocado com suas renúncias ou sensibilizado com sua santidade, que sua habilidade para ensinar minha palavra, pastorear pessoas, cuidar dos oprimidos e administrar minha igreja não arranca aplausos de mim. Te amo mesmo inábil, fraco, desorientado, insuficiente, arrogante, incrédulo. E exijo que aceite o meu amor sem qualquer tentativa de compensação. O meu amor é o que te define, e não, seu sucesso profissional. Defina-se radicalmente como AMADO. Acho que foi isso o que Ele quis dizer.
Desde então, tenho me esforçado em redimensionar minha vida e minhas atividades em torno do amor do Pai por mim. A tarefa não tem sido fácil, pois descobri que a igreja, na verdade, é um ídolo de superfície, um meio para satisfazer um outro ídolo, um ídolo de profundidade, eu.
Tem sido difícil, sobretudo, por falta de referências. Todos parecem estar tão preocupados quanto eu com o estabelecimento do seu reino, poder e glória, exatamente a tentação da qual o Senhor nos ensina a pedir que sejamos livrados: “pois teu é...” não nosso.
Nessa busca por crescimento espiritual aprendo que nunca conseguiremos avançar à primeira lição do Senhor, a de que somos espiritualmente miseráveis e que não há nenhum tom de depreciação nessas palavras, antes, o convite para nos sentirmos bem-aventurados e a certeza de que nosso, exatamente nosso é o Reino dos Céus.  
    

terça-feira, 17 de maio de 2011

Confiança

Abraão é modelo de toda fé autêntica. Uma jornada em direção ao desconhecido e indefinido, não um plano predeterminado e claramente delineado para o futuro.
Ao visitar a Madre Tereza, um homem lhe pediu oração:
- Gostaria que a senhora orasse por mim.
- Sim, pelo o que o senhor quer que eu ore?
- Por clareza.
- Não, não orarei por isso, não é de clareza que o senhor precisa, é de confiança.
B. Manning: "A realidade da vida requer de cristãos que abandonem o que é estabelecido, óbvio e seguro e adentrem o deserto sem nenhuma explicação racional que justifique suas decisões e garanta seu futuro. Por quê? Pura e simplesmente porque Deus sinaliza nessa direção e lhe oferece sua promessa."

quarta-feira, 4 de maio de 2011

O pão nosso de cada dia dá-nos hoje.

Pai nosso, nos ajuda a crer que é do Senhor que vem o nosso sustento.

Nos ajuda, então, a esperar do Senhor e não dos homens.

Pai, nos ensina a viver com o que é nosso, e assim, sermos felizes.

Nos ensina a não querer a porção de pão que o Senhor designou para o outro, e a não fazermos comparação.

Pai, queremos esperar do Senhor o pão de hoje, nunca o de amanhã.

E Pai, nos ensina que o Senhor é nosso, e nunca exclusivamente meu.

O que peço a mim peça a todos,

Amém.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Teologia pra viver


“Por essa causa me ponho de joelhos diante do Pai” (Efésios 3.1)

Durante muitos anos acreditei que o auge da espiritualidade cristã era o conhecimento preciso, exaustivo e correto da Bíblia. Conhecer o texto, sua correta interpretação e devida aplicação no dia a dia da vida era o alvo da caminhada de um cristão. Foi quando doutrinas centrais da fé só fizeram sentido pra mim depois de tê-las experimentado em oração, como se o próprio Deus me soprasse elas e me fizesse sentir o que eu só “conhecia de ouvir falar”.
No texto acima citado, numa das cartas mais doutrinárias e densas da Bíblia, depois de uma exposição do que significa a salvação e suas conseqüências na vida do eleito, após ter falado das insondáveis riquezas de Cristo. Paulo abandona a pena (caneta) e se coloca de joelhos, em oração, como se não tivesse mais nada a dizer à nossa cabeça, e apela para Deus, no sentido de Esse, nos comunicar por meio do Espírito, ao nosso espírito, e não ao nosso intelecto, o que nos fora comunicado com palavras.
Daí eu entendo que há uma dimensão do conhecimento cristão que não é da cabeça. Assim como o amor e outros sentimentos não podem ser explicados, apenas sentidos. Mesmo que pudéssemos explica-los, o entendimento não os transformariam em existência naquele que o entendeu. Por exemplo, certa vez, me afeiçoei a uma criança muito fofa que brincava com sua mãe e me pus a imaginar o quanto aquela mãe o amava. Então perguntei a ela como era o amor por ele, ao que ela respondeu: “É um amor que chega a doer”. Sua explicação não foi suficiente para eu “entender” o amor, porém, mesmo que fosse, eu não teria imediatamente sentido o que ela sentia, tão somente porque entendi. Pois o amor não é entendimento, é afeto, e como tal, sai da competência da razão.
Assim é também nossa relação com Deus e com as verdades bíblicas. A Bíblia não é um fim em si mesma, ela aponta para um relacionamento vivo com o Deus vivo. Cristo é o Caminho e as Escrituras Sagradas são as placas de sinalização.
Assim como Paulo depois de escrever, abandona o texto e ora, devemos depois de ler, fechar a Bíblia e dizer: “Pai, me faça sentir, ser e experimentar o que a tua palavra me ensinou, amém”.